Cultura

Dos ensaios na Paraíba ao jazz mundial: o legado de Moacir Santos

Compositor completaria 100 anos em 26 de julho; passagem pela banda da Polícia Militar e pela Rádio Tabajara marcou o início de sua trajetória profissional.

O centenário de nascimento de Moacir Santos, celebrado em 26 de julho de 2026, recoloca no centro da música brasileira a trajetória de um compositor, arranjador, maestro e instrumentista que construiu parte decisiva de sua formação em João Pessoa.

Nascido em Pernambuco, Moacir chegou ainda jovem à capital paraibana, depois de passar por cidades do interior tocando em bandas e conjuntos. Foi em João Pessoa que deixou uma vida marcada por deslocamentos e encontrou condições para transformar o domínio intuitivo dos instrumentos em uma carreira profissional.

Encontro em João Pessoa abriu caminho para a carreira

A entrada de Moacir Santos no ambiente musical de João Pessoa começou a partir de um encontro com o saxofonista Dedé do Sax, no Parque Solon de Lucena.

Dedé integrava a banda da Polícia Militar da Paraíba e convidou o jovem músico para participar de um teste. Moacir recebeu uma partitura, executou o trecho apresentado e foi incorporado à formação.

A experiência na banda militar abriu uma nova etapa. Pouco depois, ele passou a trabalhar na orquestra mantida pela Rádio Tabajara, uma das principais estruturas profissionais de música e comunicação existentes na Paraíba naquele período.

A passagem pela emissora permitiu que o músico aprofundasse o contato com arranjos, repertórios populares, leitura de partituras e apresentações regulares. Em 1947, antes de completar 21 anos, Moacir já havia assumido funções de regência na orquestra.

João Pessoa também entrou em sua história pessoal. Foi na cidade que conheceu Cleonice, com quem permaneceu casado ao longo da vida. Anos depois, ele resumiria aquele período dizendo que havia se tornado homem na capital paraibana.

Do rádio paraibano para a cena musical do Rio

Moacir deixou João Pessoa no fim da década de 1940 e seguiu para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, trabalhou em casas de dança, orquestras e emissoras de rádio, até se consolidar como arranjador e professor.

A formação adquirida na Paraíba foi ampliada com estudos realizados com nomes como Hans-Joachim Koellreutter e César Guerra-Peixe, dois músicos fundamentais para o ensino e a renovação da linguagem musical no Brasil.

Moacir passou a combinar referências do Nordeste, ritmos de matriz africana, música de concerto e jazz. O resultado foi uma linguagem própria, reconhecida por músicos de diferentes gerações.

Sua atuação como professor também teve grande alcance. Entre os músicos associados às suas aulas ou orientações aparecem Baden Powell, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, João Donato, Paulo Moura, Dori Caymmi, Airto Moreira e Oscar Castro-Neves.

A presença de Moacir na formação de instrumentistas e compositores ajuda a explicar por que seu nome aparece ligado à bossa nova, ao samba-jazz e à renovação dos arranjos brasileiros, mesmo sem ter alcançado junto ao grande público a mesma projeção de alguns de seus alunos.

“Coisas” tornou-se referência da música instrumental

O álbum Coisas, lançado em 1965, é considerado uma das obras centrais de Moacir Santos. O disco reúne dez composições numeradas e apresenta uma combinação de harmonias sofisticadas, instrumentos de sopro, percussão e elementos afro-brasileiros.

O título foi inspirado na ideia de “opus”, expressão utilizada na música erudita para organizar obras de um compositor. Moacir transformou o conceito em “Coisa Número 1”, “Coisa Número 2” e assim sucessivamente.

A composição mais conhecida do conjunto é “Coisa Número 5”, posteriormente popularizada como “Nanã”. A música recebeu letra de Mário Telles e ganhou gravações de artistas como Nara Leão, Wilson Simonal e Sérgio Mendes.

“Nanã” também apareceu no filme Ganga Zumba, dirigido por Cacá Diegues. O alcance da composição mostra como Moacir transitava entre música instrumental, cinema, canção popular e arranjos orquestrais.

Mudança para os Estados Unidos ampliou a projeção internacional

No fim da década de 1960, Moacir mudou-se para os Estados Unidos, atraído pelas possibilidades de trabalhar com cinema e pelo mercado musical norte-americano.

Na Califórnia, desenvolveu atividades como compositor, arranjador, professor e instrumentista. Também participou de projetos ligados a trilhas audiovisuais e gravou discos como Maestro, título que reproduzia a forma como passou a ser chamado no país.

O músico permaneceu nos Estados Unidos por aproximadamente quatro décadas. Morreu em 6 de agosto de 2006, aos 80 anos.

Nos últimos anos de vida, teve sua obra revisitada em projetos como Ouro Negro, produzido por Mário Adnet e Zé Nogueira. O trabalho reuniu composições do maestro e participações de nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, João Bosco, Djavan, Joyce e Ed Motta.

Seu último álbum, Choros e Alegria, foi lançado em 2005 e teve a participação do trompetista norte-americano Wynton Marsalis.

Centenário amplia reconhecimento da obra

O centenário de Moacir Santos motivou homenagens, programas especiais e novas audições de sua discografia. A Rádio MEC preparou uma série dedicada aos caminhos percorridos pelo compositor, enquanto outras emissoras retomaram gravações e entrevistas históricas.

Para a Paraíba, a data também recupera uma parte da história cultural de João Pessoa. A cidade não foi apenas um ponto de passagem: ofereceu ao jovem músico uma banda profissional, trabalho em uma emissora, experiência como regente e relações pessoais que acompanhariam toda a sua vida.

Moacir Santos nasceu em Pernambuco, desenvolveu a carreira no Rio de Janeiro e alcançou projeção nos Estados Unidos. Entre esses lugares, João Pessoa ocupou o papel de espaço de formação — a cidade onde o músico encontrou a estrutura necessária para começar a construir uma das obras mais originais da música brasileira.